21 agosto 2006

Temporada de caça aos brasucas...

21/08/2006 - 09h10 Ameaçados, brasileiros fogem nos EUA VINICIUS QUEIROZ GALVÃOda Folha de S.Paulo, em Riverside.
Uma nova lei municipal antiimigração e retaliações de milícias levaram à fuga decerca de 2.000 brasileiros da cidade de Riverside, no Estado americano de NovaJersey, a 170 km de Nova York.Desde 26 de julho, é crime em Riverside alugar imóveis, dar emprego e contratarserviços de imigrantes, com pena de multa e detenção. Associações de defesa de imigrantes contestam na Justiça a eficácia da lei,alegando que municípios e Estados não têm competência para legislar sobre temasfederais.
Um projeto de lei do presidente George W. Bush com novas regras para imigraçãotramita atualmente no Senado americano. A proposta prevê a legalização declandestinos que estejam no país há mais de cinco anos, desde que paguem multase impostos retroativos.
A Folha ouviu relatos de brasileiros, confirmados pela polícia local, de quecasas e carros haviam sido incendiados como intimidação. A milícia xenófoba,armada de tacos de beisebol e espingardas (o porte de armas é legalizado nosEUA), daria prazo de 72 horas para que imigrantes em situação irregulardeixassem a cidade.
O modelo ufanista de Riverside foi baseado e instruído,segundo moradores contrários à presença de estrangeiros, pelo grupo Minuteman,voluntários armados que patrulham a fronteira com o México.Com 8.500 habitantes, Riverside é uma das oito localidades nos EUA que aprovaramleis locais para combater o trabalho ilegal de imigrantes.Dos 4.000 sem-documento, 2.000 são brasileiros. Quase todos deixaram a cidade,de acordo com a prefeitura e com a paróquia local, que celebra missas emportuguês.Os poucos que permaneceram mantêm pequenos comércios, como loja do Boticário,restaurante típico e supermercado de produtos brasileiros.
"Os brasileiros e os latinos são os melhores amigos dos EUA. Amamos a América.Sou parte deste país", disse Susanete Silva, 40, faxineira de Nova Xavantina(MT), há cinco anos nos EUA."Invadiram minha casa, jogaram uma bomba de querosene e quebraram meu carro",afirma Rosilei Pereira, 39, também faxineira, há oito anos em Riverside. "GanhoUS$ 3.000 (R$ 6.400) por mês", conta.
A nova lei de Riverside proíbe o espanhol e o português em anúncios, prevê multade US$ 1.000 para proprietários que aluguem imóveis a estrangeiros e suspensãoda licença de funcionamento para comerciantes que contratem imigrantes. Prisão éprevista em caso de reincidência.
ClimaRiverside é o típico povoado de interior dos EUA. Com duas ruas principais que se cruzam, a cidade-dormitório vive do comércio local e de serviços. Não há indústria, e a metrópole mais próxima é Filadélfia, a 25 km. As casas ostentambandeiras americanas. Só há duas agências bancárias.
Natural de Ipatinga (MG), Wander Alves, 33, entrou nos EUA pela fronteiramexicana. Disse ter pago US$ 10,5 mil para entrar há três anos por intermédio de"coiotes". Ontem foi seu último dia de trabalho como açougueiro no "Victor'sMarket", supermercado especializado em marcas brasileiras. Sem falar inglês,Alves diz trabalhar 12 horas diárias, sete dias por semana para ganhar US$ 3.000mensais. "Vou para Delran (cidade vizinha). Não vejo a hora de voltar aoBrasil."
Outro mineiro, o carpinteiro José Carlos Sousa, 32, vai para a Flórida. "A únicacoisa que posso fazer é sair daqui. Não falo inglês, não fico sabendo de nada",diz. Antes de ganhar US$ 2.500 por mês nos EUA, recebia um salário mínimo como pastor de gado em Itaiomim.